domingo, 13 de maio de 2012

Maria de Azevedo. Maldita Sejas


Contigo desenlaço os embaraços
Da minha mente, da minha alma,
Procuro a paz, a minha calma
Mas apenas me destruo em pedaços…


Tu, bazar de inquietudes
Assistes aos devaneios e virtudes,
Do meu ser fraco e iludes
Docemente o meu corpo frágil!


Diário de romarias sem rumo,
Navio afundado sem remédio,
Diluo-me em luz ténue e fumo,
Ofereço-me ao eterno tédio…


E de repente, num desabafo, como por magia,
Deixo de engolir a fantasia,
Desvendo-me e entrego-me a ti,
Poesia maldita, a minha agonia!

domingo, 6 de maio de 2012

Maria Manuela Conde Silva. Padres e Podres.


- Escute, quer ouvir o que eu digo? Iniciou o avô Manuel, na casa do Sr. Martinho em Macedo, juntamo-nos um grupo de vários amigos, vindos alguns das feiras e da lavoura, e lá reunindo o que cada um levava, sim porque a tainada não ficava por nada menos que umas postas de bacalhau e um bom vinho, jantamos pela noite dentro.
Pois, o vinho, ah senão fosse o vinho!
Saímos já de madrugada da casa, quando ao alvorecer a vizinhança já se preparava para mais um dia de azáfama. Nisto, saída não sei de onde surge a Adozinda e dirigindo-se a nós exclama:
- Não se envergonham, esta cambada!
Mas, escutem, não é que estava entre nós o Grilo-o-velho, o de Travanca, o pai do padre da vila e que nem convidado tinha sido para a comezaina, mas que perante a situação dirige-se à senhora, sim porque a Adozinda era senhora, mulher casada, e lhe diz:
-Tu, cala-te bem calada senão eu digo ao meu filho para dizer quem tu és.
Aquilo caiu que nem uma bomba, mas não era novidade para nós.
Até que o padre Agostinho que também se encontrava connosco se virou para mim e disse:
-Queres ver Manel, que aquele filho da puta, que tanto me perseguiu para me querer difamar, também tem uma palavra a dizer?
Bem, todos nós sabíamos que o Agostinho, de Vale da Porca, que dava missa lá para os lados de Bragança, tinha também um caso com uma professora.
- Pois avô, não vê que as professoras que vão para essas terriolas levam uma vida muito solitária?
- Escuta, mas ele que estava todo enfonado dirigiu-se ao Grilo velho e disse:
- Pois, o seu filho bem que me fez a vida negra, mas também não fica atrás.
- Ai os padres avô, ai os padres.
- Mas, escutem o que eu digo, dizia o avô, quanto ao padre Grilo, era visto a entrar na casa da Adozinda enquanto o marido saía para o trabalho, coitado, e por lá permanecia às três e quatro horas. Ora digam-me lá o que é o que o homem estava lá tanto tempo a fazer?
- “Ai o alma do Diabo”, avô!
- Escuta, e assim nasceu o primeiro filho da Adozinda e não é que o padre fez questão de ser o padrinho?
- Ó avô, padre que quer ser padrinho, não sei não!
- Aquela desavergonhada, era atrevida que nem uma mula com o cio. Mas ninguém falou mais sobre o assunto, basta olhar para a cara do garoto, não é Cecília, tu ainda te lembras, Cecília?
- Lembro, Manel, o garoto é a cara do padre que até era mais bem composto que o marido da Adozinda.
- E um dia já mais velho, continuou o avô, esse mesmo padre, chegou à minha beira e perguntou:
- Ó Manel, então as tuas garotas não vão à catequese?
- Não Sr. padre, a catequese não enche a barriga a ninguém, não é?
- Pois avô, a catequese  não, mas o padre talvez.
- Não às minhas meninas não.





domingo, 29 de abril de 2012

Alberto R. Monteiro. Filiação

E mais um texto a sair! Desta vez apresentamos Alberto R. Monteiro. Apreciem ;)


        Sou um filho da geração dourada, militante assumido dos vícios decadentes desta nova babilónia. Vivo entre os mortais de gravatas austeras e sorrisos comprados a contrato. Sobre a minha testa um halo de halogénio gasto e cinzento. Absorto nos prazeres da carne que me liquefazem as pupilas, consumo corpos, degustando a pele e bebendo o seu tutano. Espremendo o suor, anseio por rasgar os seus seios e banhar- me nesse chuveiro sangrento.
        
         Sou um filho da geração revolucionária, camarada atento ao reflexo televisivo das excitantes noticias deste maravilhoso ano, mil novecentas e setenta e nove arvores em flor desde do beijo do filho do homem no filho do criador. Enxertadas na pele carrego novecentas e noventa e nove frases de ordem, prontas a rebentar na garganta, escarros empregnados das maleitas da classe trabalhadora. Do alto da minha torre, padeço-me dos filhos da mesma condição, e berro! Em angústia profunda enquanto janto.
        
         Sou um filho da sempre pueril geração eclesiástica, cuja a fé é cinza gasta na minha boca, pastosa e incoerente, criadora do caminho renegado por mil, galgado por todos. O seu corpo arremessado pelos cantos do mundo, adubo nos pastos estéreis onde se sustentam moribundas carcassas de gado. Um cristo em cada gaveta dos fundos e uma juba para adornar cada pescoço.

         Bom dia e oremos senhores.

         Brindemos alto, brindemos com alegria. Pois somos filhos desta nova era banal que de tudo o que era sacro fez um pendericalho.
         Brindemos e berremos alto, até a nossa garganta rasgar! Entre o sangue do suicida e do Mártir ergamos as nossas pesadas botas ao som de aplausos! Na imolação da carne usemos o carvão da pele para esticar os nossos estandartes! Correi, ide por toda a parte!

         Porque eu! Eu! Sou um filho destas novas abafadas noites de carnificinas orgiásticas! Gero o ódio, roubo e violo! Dilacero o inocente com golpes de papel! O seu sorriso é a minha culpa, o seu grito o meu egoísmo! E o tempo, a única bala no meu revolver com o gatilho de marfim.

Porque eu! Eu! Sou um filho da Puta.

domingo, 22 de abril de 2012

Poeta de Prateleira. Obsoleta.



Mais um Domingo, mais um texto! E neste caso mais um em forma de verso. Apresentamos um autor que se auto-denomina o «poeta de prateleira». Apreciem!


obsoleta (2012)


ideia que esperneia
nem me dou ao trabalho
de te querer, de te ver
de te dar agasalho
deito fora e agora
devolvida ao baralho
obsoleta ideia e deitei-a
sob tão denso orvalho
não te ver, nem te querer
à espera de um atalho
agora que foste embora
fico a cair onde falho

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Maria de Azevedo. Saudade.

Porque quem trabalha ao Domingo nem sempre consegue vir ao computador, com mais um lamentável atraso apresentamos Maria de Azevedo!

Saudade

A dor pelo tempo que me abraça

Inquieto amargo e profundo,

Extorquiu-me o dia, a noite, cada segundo

Matando tudo por onde passa…


Deixando um odor nauseabundo,

Violento, visceralmente entrelaçado,

Impõe-se perante mim, este passado,

Sublime, tirano e vagabundo.


Sonho um dia curar a enfermidade,

Viver passivamente este presente

Sabendo no entanto, que por mais que tente,

Jamais fugirei a esta saudade…

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Tomé Quié Meu Tatu de O'Q. Carvalho. Claustrofobia

E pedindo desculpa pelo atraso de um dia (visto que as nossas publicações surgem normalmente ao Domingo, pelo menos é o estipulado) o Cadavre Exquis apresenta uma nova entrada, desta vez em verso! Mas antes do poema propriamente dito há que conhecer a personagem que o escreve e a sua pequena biografia que é por si só uma obra de arte!


Tomé Quié Meu Tatu de O' Q. Carvalho morreu aos 18 anos num acidente de carrinho de compras deixando para trás sua esponja e três fios—dois deles já casacos—e contribuíu com mais de 250 letras para o património intelectual da humanidade. Já no fim de vida desabafou em confidência íntima que temia não viver para assistir à estreia da adaptação cinematográfica da sua obra "Arte Hoje em Dia". Faleceu na noite anterior rodeado por 9 amigos próximos e um guarda-redes um pouco mais longe, a quem não dava grandes confianças. Sentiremos todos a sua*falta*.



Claustrofobia (em 4 cantos)

São quatro longos mantos
que me lançam, como redes,
feitiços e encantos
asfixiando tantos
movimentos, as paredes.

Sento-me tonto, moço.
tenho mais do que mil sedes
poço sem água, qual fosso..
são quatro.. e todos ouço
os cantos das paredes.


se não houvessem paredes
a unir o chão com o tecto
pisávamos candeeiros
e ninguém era arquitecto

se nao houvessem paredes
tropeçávamos nas chaminés da metrópole
e nos arranha-calcanhares,
e os pintores tinham muito menos trabalho.



sábado, 31 de março de 2012

Maria Manuela Conde Silva. O Sonho

Relatos verídicos dos que mandam para lá do Marão parte I.
Certo dia, Maria Manuela Conde Silva decidiu fazer uma composição dos relatos verídicos que o seu sogro tem por contar. Aqui fica o resultado, ora escutem...

- Mas escutem, querem ouvir o que eu digo? O meu pai morreu muito novo, com quarenta e três anos.

- Ó avô como se chamava o seu pai?

- Zé, morreu de desgosto, depois de ter sido vigarizado por um polaco, não durou muito tempo.

- Ó avô conte lá.

- O meu pai, um dia levou com ele, quatro homens para os lados do nosso terreno quem vai para Algoso, e pediu-lhes para escavarem num sítio. Os homens estavam ao fim de um dia cansados e ansiosos por saberem a razão daquela lavoura.

- Ó tio Zé para que quer que a gente cave tão fundo?

- É para abrir um poço, para uma horta.

Mas não, escutem, o meu pai tinha sonhado três vezes o mesmo sonho. Que tinha que abrir naquele lugar um grande e profundo buraco. Três vezes, sim senhor, parece obra de Deus. E lá num dia, vira-se um dos homens que estava a cavar começa aos gritos e diz:

- Caraças, temos aqui é minério ó tio Zé!

E assim foi, lá descobriram aquele metal cinzento brilhante, o volfrâmio, que depois mais tarde era vendido lá para fora. Ía em saquinhos muito pequeninos, era por causa da Grande Guerra, eu era pequeno, mas lembro-me muito bem de ver partir esses saquinhos em carros de bois e cavalos, cheios até cima, para serem vendidos em Três Igrejas.

- Então o Bisavô ficou rico.

Não, escuta o que eu digo, o meu pai quando descobriu o minério vendeu todos os terrenos que tinha e naquele tempo, fez uma boa maquia, cerca de 1000 contos, que era muitíssimo dinheiro e começou a tratar de dar início ao que tinha que fazer para poder explorar a mina.

Apareceu lá na aldeia um casal polaco, ele engenheiro de minas, que dizia que vinha para fazer sociedade com ele para a exploração da mina. O meu pai na sua santa ignorância, foi com ele à Régua fazer uma escritura, pensava ele de sociedade, quando na verdade o cabrão do “Kaleve” como lhe chamavam, fez com que assinasse um papel em que passava tudo para as mãos dele. O meu pai quando soube o que o outro lhe tinha feito, agarrou na espingarda e queria dar cabo dele, matava-o, não fosse a Guarda Republicana e os amigos, o vigarista não resistia.

- Ó avô e que fez o seu pai depois?

- Olha, filho, nunca mais ficou o mesmo, esteve mais de quatro meses doente em casa sem sair, e sempre vigiado para que não fosse fazer outra loucura.

- Mas depois viviam de quê, avô?

- Do que tinham vivido até ali, eram tendeiros e continuaram a sê-lo, mas ele embora depois ainda fosse umas vezes connosco, nunca fazia nada, andava por lá, e só queria ir beber. Era eu e a minha mãe que íamos para as feiras, ele só acompanhava.

Mas escuta, o que é mais engraçado, quer dizer não tem muita piada, um dia vinha eu de Maçaneira, aí com uns nove, dez anos, eu seguia á frente enquanto que o meu pai ainda vinha noutra mula muito lá para trás, quando me aparece um dos capatazes do polaco que tinha feito a vigarice ao meu pai, e de mau pegou-se comigo, eu não pensei duas vezes, zás, enfiei-lhe a calagouça numa perna bem enfiada, meti-me em cima da mula e zupa toca a fugir-me para casa. Não é que o filho da mãe veio atrás para dar cabo de mim, chegou-se à porta da minha casa e de lá não arredava. Ora se quer ver, o cabrão que se tinha vendido para o outro. Era mau como as cobras, mal-educado, sempre que me via ou aos meus irmãos tentava sempre meter-se connosco. Um dia quando o meu pai tinha lá ido ás minas depois do que tinha acontecido, ele e mais o tio Zé Santos Pinche, viraram-se um para o outro e disseram:

- A esse aí abre-se já uma cova e enterra-se lá dentro.

Se querem ver, que mal lhe tinha feito o meu pai?

Pois é, não foi ali, mas pouco tempo depois, o meu pai com uma cirrose de tanto beber para esquecer. Não resistiu, e ele que até era inteligente, forte e bem guapo.