domingo, 6 de maio de 2012

Maria Manuela Conde Silva. Padres e Podres.


- Escute, quer ouvir o que eu digo? Iniciou o avô Manuel, na casa do Sr. Martinho em Macedo, juntamo-nos um grupo de vários amigos, vindos alguns das feiras e da lavoura, e lá reunindo o que cada um levava, sim porque a tainada não ficava por nada menos que umas postas de bacalhau e um bom vinho, jantamos pela noite dentro.
Pois, o vinho, ah senão fosse o vinho!
Saímos já de madrugada da casa, quando ao alvorecer a vizinhança já se preparava para mais um dia de azáfama. Nisto, saída não sei de onde surge a Adozinda e dirigindo-se a nós exclama:
- Não se envergonham, esta cambada!
Mas, escutem, não é que estava entre nós o Grilo-o-velho, o de Travanca, o pai do padre da vila e que nem convidado tinha sido para a comezaina, mas que perante a situação dirige-se à senhora, sim porque a Adozinda era senhora, mulher casada, e lhe diz:
-Tu, cala-te bem calada senão eu digo ao meu filho para dizer quem tu és.
Aquilo caiu que nem uma bomba, mas não era novidade para nós.
Até que o padre Agostinho que também se encontrava connosco se virou para mim e disse:
-Queres ver Manel, que aquele filho da puta, que tanto me perseguiu para me querer difamar, também tem uma palavra a dizer?
Bem, todos nós sabíamos que o Agostinho, de Vale da Porca, que dava missa lá para os lados de Bragança, tinha também um caso com uma professora.
- Pois avô, não vê que as professoras que vão para essas terriolas levam uma vida muito solitária?
- Escuta, mas ele que estava todo enfonado dirigiu-se ao Grilo velho e disse:
- Pois, o seu filho bem que me fez a vida negra, mas também não fica atrás.
- Ai os padres avô, ai os padres.
- Mas, escutem o que eu digo, dizia o avô, quanto ao padre Grilo, era visto a entrar na casa da Adozinda enquanto o marido saía para o trabalho, coitado, e por lá permanecia às três e quatro horas. Ora digam-me lá o que é o que o homem estava lá tanto tempo a fazer?
- “Ai o alma do Diabo”, avô!
- Escuta, e assim nasceu o primeiro filho da Adozinda e não é que o padre fez questão de ser o padrinho?
- Ó avô, padre que quer ser padrinho, não sei não!
- Aquela desavergonhada, era atrevida que nem uma mula com o cio. Mas ninguém falou mais sobre o assunto, basta olhar para a cara do garoto, não é Cecília, tu ainda te lembras, Cecília?
- Lembro, Manel, o garoto é a cara do padre que até era mais bem composto que o marido da Adozinda.
- E um dia já mais velho, continuou o avô, esse mesmo padre, chegou à minha beira e perguntou:
- Ó Manel, então as tuas garotas não vão à catequese?
- Não Sr. padre, a catequese não enche a barriga a ninguém, não é?
- Pois avô, a catequese  não, mas o padre talvez.
- Não às minhas meninas não.





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