- Mas escutem, querem ouvir o que eu digo? O meu pai morreu muito novo, com quarenta e três anos.
- Ó avô como se chamava o seu pai?
- Zé, morreu de desgosto, depois de ter sido vigarizado por um polaco, não durou muito tempo.
- Ó avô conte lá.
- O meu pai, um dia levou com ele, quatro homens para os lados do nosso terreno quem vai para Algoso, e pediu-lhes para escavarem num sítio. Os homens estavam ao fim de um dia cansados e ansiosos por saberem a razão daquela lavoura.
- Ó tio Zé para que quer que a gente cave tão fundo?
- É para abrir um poço, para uma horta.
Mas não, escutem, o meu pai tinha sonhado três vezes o mesmo sonho. Que tinha que abrir naquele lugar um grande e profundo buraco. Três vezes, sim senhor, parece obra de Deus. E lá num dia, vira-se um dos homens que estava a cavar começa aos gritos e diz:
- Caraças, temos aqui é minério ó tio Zé!
E assim foi, lá descobriram aquele metal cinzento brilhante, o volfrâmio, que depois mais tarde era vendido lá para fora. Ía em saquinhos muito pequeninos, era por causa da Grande Guerra, eu era pequeno, mas lembro-me muito bem de ver partir esses saquinhos em carros de bois e cavalos, cheios até cima, para serem vendidos em Três Igrejas.
- Então o Bisavô ficou rico.
Não, escuta o que eu digo, o meu pai quando descobriu o minério vendeu todos os terrenos que tinha e naquele tempo, fez uma boa maquia, cerca de 1000 contos, que era muitíssimo dinheiro e começou a tratar de dar início ao que tinha que fazer para poder explorar a mina.
Apareceu lá na aldeia um casal polaco, ele engenheiro de minas, que dizia que vinha para fazer sociedade com ele para a exploração da mina. O meu pai na sua santa ignorância, foi com ele à Régua fazer uma escritura, pensava ele de sociedade, quando na verdade o cabrão do “Kaleve” como lhe chamavam, fez com que assinasse um papel em que passava tudo para as mãos dele. O meu pai quando soube o que o outro lhe tinha feito, agarrou na espingarda e queria dar cabo dele, matava-o, não fosse a Guarda Republicana e os amigos, o vigarista não resistia.
- Ó avô e que fez o seu pai depois?
- Olha, filho, nunca mais ficou o mesmo, esteve mais de quatro meses doente em casa sem sair, e sempre vigiado para que não fosse fazer outra loucura.
- Mas depois viviam de quê, avô?
- Do que tinham vivido até ali, eram tendeiros e continuaram a sê-lo, mas ele embora depois ainda fosse umas vezes connosco, nunca fazia nada, andava por lá, e só queria ir beber. Era eu e a minha mãe que íamos para as feiras, ele só acompanhava.
Mas escuta, o que é mais engraçado, quer dizer não tem muita piada, um dia vinha eu de Maçaneira, aí com uns nove, dez anos, eu seguia á frente enquanto que o meu pai ainda vinha noutra mula muito lá para trás, quando me aparece um dos capatazes do polaco que tinha feito a vigarice ao meu pai, e de mau pegou-se comigo, eu não pensei duas vezes, zás, enfiei-lhe a calagouça numa perna bem enfiada, meti-me em cima da mula e zupa toca a fugir-me para casa. Não é que o filho da mãe veio atrás para dar cabo de mim, chegou-se à porta da minha casa e de lá não arredava. Ora se quer ver, o cabrão que se tinha vendido para o outro. Era mau como as cobras, mal-educado, sempre que me via ou aos meus irmãos tentava sempre meter-se connosco. Um dia quando o meu pai tinha lá ido ás minas depois do que tinha acontecido, ele e mais o tio Zé Santos Pinche, viraram-se um para o outro e disseram:
- A esse aí abre-se já uma cova e enterra-se lá dentro.
Se querem ver, que mal lhe tinha feito o meu pai?
Pois é, não foi ali, mas pouco tempo depois, o meu pai com uma cirrose de tanto beber para esquecer. Não resistiu, e ele que até era inteligente, forte e bem guapo.