domingo, 29 de abril de 2012

Alberto R. Monteiro. Filiação

E mais um texto a sair! Desta vez apresentamos Alberto R. Monteiro. Apreciem ;)


        Sou um filho da geração dourada, militante assumido dos vícios decadentes desta nova babilónia. Vivo entre os mortais de gravatas austeras e sorrisos comprados a contrato. Sobre a minha testa um halo de halogénio gasto e cinzento. Absorto nos prazeres da carne que me liquefazem as pupilas, consumo corpos, degustando a pele e bebendo o seu tutano. Espremendo o suor, anseio por rasgar os seus seios e banhar- me nesse chuveiro sangrento.
        
         Sou um filho da geração revolucionária, camarada atento ao reflexo televisivo das excitantes noticias deste maravilhoso ano, mil novecentas e setenta e nove arvores em flor desde do beijo do filho do homem no filho do criador. Enxertadas na pele carrego novecentas e noventa e nove frases de ordem, prontas a rebentar na garganta, escarros empregnados das maleitas da classe trabalhadora. Do alto da minha torre, padeço-me dos filhos da mesma condição, e berro! Em angústia profunda enquanto janto.
        
         Sou um filho da sempre pueril geração eclesiástica, cuja a fé é cinza gasta na minha boca, pastosa e incoerente, criadora do caminho renegado por mil, galgado por todos. O seu corpo arremessado pelos cantos do mundo, adubo nos pastos estéreis onde se sustentam moribundas carcassas de gado. Um cristo em cada gaveta dos fundos e uma juba para adornar cada pescoço.

         Bom dia e oremos senhores.

         Brindemos alto, brindemos com alegria. Pois somos filhos desta nova era banal que de tudo o que era sacro fez um pendericalho.
         Brindemos e berremos alto, até a nossa garganta rasgar! Entre o sangue do suicida e do Mártir ergamos as nossas pesadas botas ao som de aplausos! Na imolação da carne usemos o carvão da pele para esticar os nossos estandartes! Correi, ide por toda a parte!

         Porque eu! Eu! Sou um filho destas novas abafadas noites de carnificinas orgiásticas! Gero o ódio, roubo e violo! Dilacero o inocente com golpes de papel! O seu sorriso é a minha culpa, o seu grito o meu egoísmo! E o tempo, a única bala no meu revolver com o gatilho de marfim.

Porque eu! Eu! Sou um filho da Puta.

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