Sou
um filho da geração dourada, militante assumido dos vícios decadentes desta
nova babilónia. Vivo entre os mortais de gravatas austeras e sorrisos comprados
a contrato. Sobre a minha testa um halo de halogénio gasto e cinzento. Absorto
nos prazeres da carne que me liquefazem as pupilas, consumo corpos, degustando
a pele e bebendo o seu tutano. Espremendo o suor, anseio por rasgar os seus
seios e banhar- me nesse chuveiro sangrento.
Sou um filho da geração revolucionária,
camarada atento ao reflexo televisivo das excitantes noticias deste maravilhoso
ano, mil novecentas e setenta e nove arvores em flor desde do beijo do filho do
homem no filho do criador. Enxertadas na pele carrego novecentas e noventa e
nove frases de ordem, prontas a rebentar na garganta, escarros empregnados das
maleitas da classe trabalhadora. Do alto da minha torre, padeço-me dos filhos
da mesma condição, e berro! Em angústia profunda enquanto janto.
Sou um filho da sempre pueril geração
eclesiástica, cuja a fé é cinza gasta na minha boca, pastosa e incoerente,
criadora do caminho renegado por mil, galgado por todos. O seu corpo
arremessado pelos cantos do mundo, adubo nos pastos estéreis onde se sustentam
moribundas carcassas de gado. Um cristo em cada gaveta dos fundos e uma juba
para adornar cada pescoço.
Bom dia e oremos senhores.
Brindemos alto, brindemos com alegria.
Pois somos filhos desta nova era banal que de tudo o que era sacro fez um
pendericalho.
Brindemos e berremos alto, até a nossa
garganta rasgar! Entre o sangue do suicida e do Mártir ergamos as nossas
pesadas botas ao som de aplausos! Na imolação da carne usemos o carvão da pele
para esticar os nossos estandartes! Correi, ide por toda a parte!
Porque eu! Eu! Sou um filho destas
novas abafadas noites de carnificinas orgiásticas! Gero o ódio, roubo e violo!
Dilacero o inocente com golpes de papel! O seu sorriso é a minha culpa, o seu
grito o meu egoísmo! E o tempo, a única bala no meu revolver com o gatilho de
marfim.
Porque
eu! Eu! Sou um filho da Puta.
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